Benfica Champions 2019 Post-mortem

Depois de uma época 2018/19 de “reconquista” da Liga Nos e de um sucesso financeiro inigualável com a liquidação dos passes de João Félix, Talisca, Raul Jimenez entre outros, perfazendo mais de 200M€, esperava-se nesta época de 2019/20 um “reconquista” da fase de grupos da Champions. Chegamos à passagem de ano para 2020 e alcançámos exactamente o que já tínhamos alcançado o ano passado para a Liga dos Campeões, atingir o “honroso” terceiro lugar que nos dá acesso à Liga Europa.

Existe quem ache que se podia ter feito mais com o plantel à disposição de Bruno Lage, existe quem ache “natural” visto estarmos enquadrados numa liga pouco competitiva e longe de ter os argumentos de equipas inseridas noutras  ligas mais de topo, e existem adeptos como eu que acreditam que este resultado era expectável devido a não termos melhorado a qualidade do nosso plantel quando comparado com épocas transactas.

Gostava com este artigo analisar os nossos onze iniciais e tentar perceber o que correu mal colectivamente e individualmente, em que posições poderemos investir e melhorar para que na próxima oportunidade, ultrapassemos a fase de grupos da Champions.

Para isso, baseando-me nos onze iniciais e nos ratings do GoalPoint, resolvi fazer um artigo para analisar o rendimento de posições e jogadores com uma excepção, Ferro que saiu lesionado no jogo com o Lyon nos minutos iniciais não foi considerado, contando o rating do seu substituto Jardel. Pensei fazer exactamente o mesmo para Rafa, que saiu lesionado contra o Lyon na primeira parte, mas apesar disso foi o jogador com rating mais alto do lado do Benfica, logo não faria sentido retirar da estatística um dos jogadores com mais influência.

Rating Champions 19-20 Benfica

Partindo da tabela acima, podemos ver que o ratings dos jogadores dos onze iniciais do Benfica na partidas da Champion variaram entre os 3,3 (numa exibição mediocre do Jota lançado a segundo avançado) e os 8,3 (numa exibição de Odysseas que nos valeu 1 ponto em terras germânicas). Podemos também chegar à média de 5,5 que nos irá servir de termos de comparação ao longo do artigo.

Se olharmos para as médias por cada jogo, na última linha, chegamos facilmente à conclusão que, de uma forma global, apesar de termos alcançado 2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas, só no último jogo em casa contra o Zenith, fizemos uma boa exibição.

Rating Champions 19-20 Benfica MediasOlhando apenas às médias por posição, nunca é bom sinal para uma equipa que a posição com rating mais alto seja a de guarda-redes, pois é sinal que o mesmo teve de intervir demasiadas vezes e que devido às suas exibições conseguimos acumular alguns pontos para alcançarmos a Liga Europa.

No lado oposto, com ratings bem abaixo da média, conseguimos dizer que as posições mais fracas nesta edição da Champions foram o defesa direito, médio esquerdo, segundo avançado (ou médio ofensivo dependendo do jogo) e ponta de lança que por coincidência foram posições “reforçadas” na pré-época com a subida de Tomás Tavares, Caio Lucas, Chiquinho, Raul de Tomás e Vinicius.

Analisando agora as posições e jogadores correspondentes com rating mais baixo:

  • Defesa Direito (4,97):
    • Tomás Tavares (5,04) – 5 jogos, 450 minutos
    • André Almeida (4,6) – 1 jogo, 90 minutos

Rating Champions 19-20 Benfica DD

Desde há demasiado tempo, como já é tradição em todas as pré-épocas, sempre ouvimos “Almeida é demasiado curto”, “é preciso reforçar a lateral direita”, etc, etc. Esta época ouvimos várias vezes como contra argumento: “Temos o Almeida, o Ebuhi e o Tomás Tavares”. Se por um lado Almeida sempre se demonstrou curto (esta época nota-se menos devido a estar lesionado muito tempo), por outro Ebuhei fez até ao último jogo da Champions o incrível numero de 6 jogos pelos sub-23, demonstrando que com 24 anos não serve como opção. Entretanto Tomás Tavares anda a crescer à força nos jogos da equipa A. Até à sua estreia na equipa principal do Benfica, tinha jogado como sénior só e apenas um jogo, no Benfica B contra o Vizela, todo o seu restante currículo foi nos sub-23 e Youth League .

Em termos das opções de Bruno Lage não podemos deixar passar em claro que 3 dias antes da estreia de Tomás Tavares contra o Leipzig, André Almeida jogou 90 minutos contra o Gil Vicente, e quatro dias depois contra o Moreirense André Almeida voltou a jogar 90 minutos. Esta ocorrência não foi única, aconteceu na 2ª jornada da Champions contra o Zenith (André Almeida foi titular contra o Setúbal 4 dias antes), aconteceu novamente na 3ª jornada contra o Lyon (André Almeida novamente a titular contra o Tondela após 4 dias) e finalmente na 4ª jornada contra o Lyon (André Almeida titular contra o Rio Ave 3 dias antes e também titular contra o Santa Clara 4 dias depois). Fica por responder porque se andou a colocar a titular um jogador de 18 anos na Champions e a utilizar um jogador experiente na Liga NOS, seria essa opção alinhada com o interesse presente de vencer esses jogos ou foi uma opção com vista ao futuro comprometendo um pouco o presente e o percurso na Liga dos Campeões?

É certo que neste momento se discute quem é o melhor defesa direito do Benfica, mas infelizmente não é por termos no presente dois grandes jogadores como opções, é porque temos dois defesas direitos razoáveis para a Liga NOS e insuficientes para o nível da Champions, como é comprovado pelos ratings de ambos os jogadores na maior competição de clubes. Se já estamos a discutir se um jogador de 18 anos é no presente melhor que um de 29 anos, será que não seria interessante tentar substituir o jogador de 29 anos por um de melhor qualidade?

  • Segundo Avançado (5,12):
    • Chiquinho (5,10) – 3 jogos, 270 minutos
    • Jota (3,3) – 1 jogo, 67 minutos
    • Rafa (6,5) – 2 jogos, 124 minutos (mas apenas 20 minutos a segundo avançado)
    • Taarabat (5,6) – 4 jogos, 360 minutos (mas apenas 1 jogo a segundo avançado)

Rating Champions 19-20 Benfica 2ALage “divorciou-se” de João Felix que fugiu para o Atlético de Madrid, mas não consegui superar essa perda mantendo-se no mesmo sistema e tentando “mascarar” outro jogador de Félix sem muito sucesso como demonstram os 4 jogadores utilizados de início na Champions. Na primeira jornada em casa contra o Leipzig resolve dar a titularidade de segundo avançado a Jota que ainda não tinha jogado a titular nesta época tendo apenas sido utilizado nos últimos minutos de alguns jogos (3’ + 12’ + 22’ + 13’) e nunca como segundo avançado. Na segunda jornada contra o Zenith fora resolve colocar Taarabat com Fejsa e Gabriel, um triângulo nunca utilizado até agora. Já na terceira jornada contra o Lyon em casa, colocou de inicio Rafa como apoio ao avançado que estava a fazer um belo jogo até se lesionar aos 20 minutos, sendo adaptado à posição um inadaptado Gedson. Já nas ultimas três jornadas jogou com Chiquinho, finalmente encontrando estabilidade na posição de apoio ao ponta de lança. Enquanto na Liga NOS íamos tentando adaptar à força RDT a essa posição, nunca Lage o utilizou de inicio na Champions.

Olhando para os ratings, só Rafa e Taarabat conseguiram atingir um nível aceitável, mesmo Chiquinho só alcançou um rating de apenas 5,10. Só a exibição de 20 minutos de Rafa (6,5) salva o rating desta posição que podia ser de longe bem pior fruto do pior rating da prova, Jota com 3,3. O que terá motivado Lage a inventar tanto na primeira jornada? Taarabat, apesar de ter safado no jogo fora contra o Zenith, é um desperdicio utiliza-lo onde não se retira proveito da sua capacidade de passe numa posição mais recuada. Por fim, Chiquinho apesar de ter sido adaptado com sucesso na Liga NOS, na Champions está longe do nível aceitável para fazer frente aos clubes que vamos defrontando na fase de grupos.

Mantendo este sistema que requer um segundo avançado, precisamos de um titular ao nivel da Champions, desde que saiu Felix que ainda não é Chiquinho, nem Jota (melhor na ala), nem Taarabat (melhor a médio centro), nem Rafa (melhor na ala esquerda), nem RDT (melhor a ponta de lança), nem Gedson (melhor a…).

  • Ponta de Lança (5,17)
    • Vinicius (5,33) – 3 jogos, 322 minutos
    • Seferovic (4,70) – 2 jogos, 207 minutos
    • Raul de Tomás (5,60) – 1 jogos, 119 minutos

Rating Champions 19-20 Benfica PLMais uma posição que tardou em encontrar quem deveria ser o titular. RDT fez o primeiro jogo contra o Leipzig em casa, na sua posição natural de ponta de lança e até fez a exibição com rating mais alto (5,6) entre os ponta de lança utilizados na Champions. Nos dois jogos seguintes, contra o Zenith fora e contra o Lyon em casa, voltámos à formula Seferovic, que sem Félix, foi banal conseguindo os ratings mais baixos (4,9 e 4,5). Por fim, nos últimos três jogos, utilizámos Vinícius que apesar de um jogo mais fraco contra o Lyon fora (5,00), progrediu para a média nos últimos 2 jogos (5,5), mostrando que Vinícius e RDT são opções mais válidas que Seferovic. A meu ver Seferovic regressou à banalidade que outrora demonstrou, sem Félix não tem nível sequer para ser o melhor da Liga Nos. Tendo em conta ter sido o melhor jogador Suiço e com algum marketing, será que não conseguimos tirar rendimento financeiro dele?

Com toda esta instabilidade, a posição de ponta de lança é das mais fracas em termos de rating do plantel, atingindo um valor de 5,17. Se retirarmos Seferovic destas contas, atingiríamos um rating razoável de 5,4. Será que RDT e Vinícius poderão crescer e atingir um nível ainda mais alto ou será que valeria a pena reforçar em qualidade a posição? Tendo em conta a falta de um segundo avançado já abordado na posição anterior, talvez fosse mais interessante investir nessa posição em força, um Jonas conseguia fazer as duas posições…

  • Médio Esquerdo (5,18):
    • Cervi (5,3) – 5 jogos, 398 minutos
    • Rafa (4,6) – 2 jogos, 124 minutos (um dos quais a segundo avançado)

Rating Champions 19-20 Benfica MENo primeiro jogo da Champions, sem ter feito um único minuto em qualquer jogo esta época a titular ou suplente (e já tinhamos jogado 6 jogos), Lage decide dar a titularidade a Cervi mesmo com Rafa disponível e no banco (viría a entrar no decorrer da partida). Depois, no jogo seguinte fora contra o Zenith, decide voltar à naturalidade e devolver a titularidade a Rafa. No terceiro jogo, em casa com o Lyon e com sucesso, adaptou Rafa a segundo avançado que durou 20 minutos saindo por lesão e desde aí que Cervi jogou sempre a titular devido à indisponibilidade de Rafa.. Tanto Caio como Jota, na posição de médio esquerdo nunca foram titulares, entrando apenas como suplentes.

Olhando para os ratings (5,18), Cervi conseguiu ratings entre os 4,4 e os 6,0, alcançando uma média de 5,3, enquanto Rafa apenas jogou na segunda jornada contra o Zenith alcançando apenas 4,6 num mau jogo. Penso que Rafa, assim que voltar de lesão irá reconquistar a ala esquerda, remetendo a luta por minutos enquanto suplentes entre Cervi, Caio e Jota. Isto leva-nos a discutir se vale a pena ter 3 suplentes para esta posição. Cervi com 25 anos, já não vai crescer e se não mostrou até agora qualidades para se poder tornar o melhor ala na Liga NOS não serve para o Benfica. Caio, com a mesma idade já demonstrou que nunca deveria ter vestido o manto sagrado. Já Jota, que ainda não renovou, demonstra nos seus 20 anos merecer mais oportunidades para que possa demonstrar o potencial que muita gente acredita ter, possivelmente faltando mais minutos de jogo. Neste momento, quem resolveu manter Cervi e Caio no plantel, decidiu atrasar a evolução de Jota.

  • Outras posições

Não foi na baliza que sofreu 11 golos (quase uma média de 2 golos por jogo), que esteve o nosso “calcanhar de Aquiles”. Se os ratings nos indicam alguma coisa, é que com piores exibições do nosso guarda-redes podíamos ter tido resultados ainda mais vergonhosos. A questão que fica no ar é se Odysseas se tivesse lesionado ou castigado, quem o iria substituir? No banco tínhamos um muito inexperiente Zlobin e na B um Svilar em construção, a meu ver já desde a época passada que precisamos de um suplente de Odysseas com provas dadas, no mínimo um GR experiente e com qualidade da Liga NOS.

Na eventualidade de Grimaldo se lesionar, ser castigado ou mesmo vendido, ficamos dependente de Nuno Tavares, um jogador com 18 anos a dar os seus primeiros passos como sénior, o que para a corrente edição da Liga dos Campeões sempre foi curto. Obviamente espera-se que no próximo ano, já com a sua formação mais completa “on the job”, que se torne uma opção valida, mas novamente estamos a formar e a arriscar perder pontos ou ultrapassar fases de competições para formarmos jogadores que mais tarde, a serem vendidos, irão demonstrar todo o seu potencial para outros campos e adeptos.

Na posição de defesa central, já na época passada se observava algum declínio de Jardel que com o passar dos anos vai perdendo uma das suas melhores características, a sua velocidade. Nesta edição da Champions isso ficou totalmente demonstrado. Sem pensar na saída de Ruben ou Ferro, é necessário substituir tanto Jardel por um defesa central que lute pela titularidade, como substituir Conti por um jogador com potencial vindo da B.

Num  meio campo que começou com Taarabat e Fejsa, passou por Fejsa e Gabriel, ainda por Florentino e Gabriel e finalmente acabando por se fixar em Gabriel e Taarabat é revelador das dificuldades que o Lage teve em encontrar qual o seu melhor miolo do meio campo. Individualmente podemos concluir que Gabriel e Taarabat foram os culpados pela subida das médias e que neste sistema conseguem o maior equilíbrio ofensivo/defensivo exigido por Lage. No outro lado do espectro encontramos Fejsa que nunca foi um jogador com capacidade ofensiva e que com todas as lesões e idade avançada já não justifica a sua presença no plantel do Benfica. Florentino, tal como no campeonato teve os seus altos e baixos, mas com a sua tenra idade e imenso potencial acredito que consiga crescer ofensivamente de maneira a concorrer com os titulares. Fora destes 4 médios ainda temos Gedson que até agora revelou enormes dificuldades em encaixar no jogo de Lage, pois no miolo não há muito espaço para transportadores de jogo,  tendo aparecido muitas vezes como segundo avançado ou na ala direita (também sem resultados válidos)  e Samaris que nesta época não tem convencido nas oportunidades que já teve.

Na ala direita pudemos assistir novamente a uma invenção de Lage, depois de Pizzi fazer os dois primeiros jogos sem brilhantismo, decide adaptar Gedson ao flanco direito com péssimos  resultados (4,7 contra o Lyon em casa e 4,1 novamente contra o Lyon fora). Pizzi nesses dois jogos estava no banco e foi suplente utilizado, tendo mesmo substituído Rafa aos 20 minutos por lesão deixando ainda mais perdido em campo Gedson que passou a jogar como segundo avançado. Apenas Pizzi, com duas enormes exibições nas ultimas jornada fora contra o Leipzig (6,9) e contra o Zenith em casa (7,9) salvou a média do flanco direito fazendo-a a subir para níveis aceitáveis. Alternativas reais a Pizzi? Como Zivkovic não conta, não há. Temos quatro opções para o flanco esquerdo e apenas Pizzi no flanco direito…

Concluindo, parte de termos falhado a passagem da fase de grupos já vem da pré-época e de um plantel desequilibrado, necessitado de investimento em qualidade e não só em potencial. A Lage também tem de ser atribuído parte das culpa pois muitas experiências e adaptações desnecessárias foram feitas no decorrer de uma prova em que os melhores onzes do Benfica deveriam ter jogado contra as melhores equipas europeias. No decorrer desta época, devido ao envelhecimento de parte do plantel, também começamos a notar a necessidade de rejuvenescimento de algumas posições para que não se note um desfasamento grande de qualidade entre primeiras e segundas linhas. Esperemos na próxima época ter um plantel mais completo e de maior qualidade para ultrapassarmos a fase de grupos.

 

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